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RELATO DE PARTO - THAÍS E BENTO

Eu tinha acabado de completar 39 semanas. Não estava ansiosa, me sentia bem fisicamente, fazendo tudo e até levando bronca do companheiro Thiago e das enfermeiras que estavam nos acompanhando por estar abusando nas atividades.  Optamos pelo parto domiciliar. Foi algo decidido antes mesmo de eu engravidar. Eu sabia que se um dia eu viesse a ser mãe, seria desta forma. Tive a sorte de ter duas doulas na família. Uma delas, teve seus dois filhos em casa, uma inspiração, sem dúvida. A outra, minha grande amiga Rebeca, companheira do primo do Thiago. Através dela fui entrando nesse mundo do parto natural, conheci o grupo Ishtar, ouvi muitas histórias e pesquisei outras tantas também. 

No dia 12/11, num sábado, eu completei 39 semanas. Era dia de Ishtar. Para quem não conhece, o Ishtar é um grupo de apoio à gestação e ao parto ativo. O tema daquele dia era Plano de Parto – como fazer? Eu, como era de se esperar, ainda não tinha feito o meu. Eu sabia tudo que eu queria e tudo que eu não queria, mas ainda não tinha escrito. Ainda que o plano não fosse ir para o hospital e sim parir em casa, no caso de alguma intercorrência, era importante ter aquele documento para que o momento do parto fosse o mais respeitado possível. Mais do que um dia para falar de plano de parto, aquele sábado também foi dia de colo no Ishtar. Foi dia do meu colo. Quando uma gestante se aproxima do dia de seu parto, fazemos uma roda em volta dela e desejamos tudo de melhor para ela, para o bebê, para o parto. E meu sábado foi assim, rodeado literalmente de muito amor. 

Na segunda 14/11 era dia de super lua e todos estavam apostando suas fichas neste dia, até eu. Mas havia chegado uma frente fria no fim de semana e todas as previsões diziam que o tempo só ia melhorar na quarta-feira. Então eu resolvi conversar com Bento... Filho, hoje o tempo está tão feio, chuva o tempo todo, até meio frio... eu sei que você gosta de água, eu também gosto, mas o dia fica tão triste com chuva...(sou dessas) Quarta vai fazer sol e ainda vai ter lua cheia, acho que vai ser beeeem mais legal...Mas se quiser vir por agora, tudo bem, você que sabe. Assim a segunda passou. Na madrugada de terça, às 3:40 acordei com a bolsa rompendo devagarinho. Olhei o facebook e vi que a doula estava online, mandei mensagem pra ela na hora e logo depois avisei às enfermeiras no nosso grupo no whatsapp . As meninas me mandaram descansar, pois o fato da bolsa estourar não significa que o trabalho de parto vá engrenar. Pois bem, me deitei e (opa!) veio uma contração que não me deixou ficar deitada. Levantei e senti a necessidade de arrumar o ninho. Comecei a montar uma espécie de altar no meu quarto, fui pegando objetos pela casa que significavam algo para mim. As pedras da minha mãe, meu Ganesha, minha água benta lá do Vaticano, meu São Francisco de Assis, meus incensos... Coloquei a caixa de som e o computador ao lado, tava tudo pronto, era só dar o play na minha playlist. Chega mensagem da doula: Você fez seu plano de parto, né???  Ai meu deus, o plano de parto! Por que eu deixo tudo pra última hora? Lembro de olhar para a mala vazia e pensar, e se eu tiver que ir para o hospital? Só eu mesma... Então entre uma contração e outra, eu fiz meu plano de parto. Lembro de salvar o documento e perceber que o dia estava clareando. 

Por volta das 7h, as enfermeiras chegaram. Perguntaram como estavam as coisas... Thiago disse: Ela tá ótima, tava até se maquiando! Ah, gente, nada de mais, só um rímel e um blush pra melhorar a cara de cansada, até porque eu havia me deitado 1 e pouca da manhã e acordei 3:40 com a bolsa rompendo, néam???

Embora a previsão fosse de frente fria, as nuvens que cobriam o céu foram sumindo, uma a uma, como num passe de mágica. E então o sol brilhou forte, me dando a certeza de que tudo estava a nosso favor.

Caminhava pela casa e quando vinha uma contração, eu me entregava. O corpo vai se movendo pra aliviar. Eu apenas obedecia. Sentava na bola, lembrava da Karla, minha professora de pilates, tentava repetir tudo que ela fazia comigo nas aulas. Nossa! Como o pilates foi importante pra mim! As enfermeiras vinham checar os batimentos do Bento e íamos acompanhando a posição dele. Cada hora estava mais abaixo, cada hora estava mais perto...

Assim a tarde passou e escureceu. Foi quando tudo começou a ficar mais intenso e mais doloroso também. Eu já estava bem cansada e não me movimentava tanto. Fui para a banheira com água quente e comecei a me perguntar: será que ainda vai demorar muito? Será que vou dar conta? E então me aparece um sorriso sereno... Uma das enfermeiras não podia continuar e então ela, a Jemima, veio assumir o posto. Não lembro se ela falou alguma coisa, só sei que ao vê-la, meu coração acalmou e eu pensei: Agora vai! Fiquei muito feliz por ela estar ali.

As contrações vinham e eu nem sabia mais como lidar. O chuveiro virou meu melhor amigo, aliviando as dores na lombar. Eu me pendurava no box e deixava todo mundo desesperado. Rebeca, a doula linda, ficou lá, juntinho de mim e dizia: Se pendura em mim!!! Solta o Box pelo amor de deus!!! KKKKKKK

E nada de Bento sair... Eu já tava bem exausta... por volta das 22h, a doce Jemima veio conversar comigo, disse que como a bolsa já havia rompido há um tempo, seria bom realizar um toque (se eu quisesse, claro). Eu na mesma hora aceitei e me deitei na cama. Ela me olhou e disse: Thaís, não vai ser preciso fazer o toque, eu já to vendo o Bento! Mais um pouquinho e ele vem! Nossa, mais uma dose de coragem. Cheguei a fazer força deitada, mas me dei conta que a gravidade não estava me ajudando ali. Foi então que decidi ir para a banqueta, onde fui amparada pela Rebeca, enquanto Jemima e Thiago estavam  posicionados à frente.  Não sei ao certo quanto tempo durou, só lembro de fazer muita força e ver aqueles rostos balançando a cabeça, num sentido positivo.  Thiago olhou pra mim e disse: Ele tá vindo, tá quase...  Mais uma contração e ele foi para os braços do pai, depois Jemima colocou nos meus braços o presente mais valioso da minha vida. Fiquei olhando pro rostinho dele, ainda sem acreditar em tudo que tinha acontecido. O choro dele anunciou sua chegada aos presentes, meu irmão foi até a janela do quarto pelo lado de fora e estourou um champagne. Viva o Bentoooo!!!! Fiquei ali agarradinha com aquele ser, dando a notícia mentalmente a minha mãe.

Acabou? Nada disso. Agora vem a placenta. Confesso que temia esse momento. Existe uma crendice, que fiquei sabendo através de uma amiga que fizera seu parto com uma parteira. Pois bem, a parteira dizia que a expulsão da placenta estaria relacionada com a relação que temos com a nossa mãe. Se tivesse algo pendente, o processo seria demorado (e doloroso).  Claro que fiquei com isso na minha cabeça. Será que havia ficado algo pendente entre nós? Como eu resolveria isso, meu deus? E para minha felicidade, pouco depois do Bento sair, eu senti algo saindo. Rápido e sem dor nenhuma.  Claro que essa ligeira expulsão da placenta significou muito pra mim. A terapia de anos atrás me ajudou muito, mas a chegada do Bento foi capaz de transformar e resolver coisas dentro de mim que eu jamais achei que seriam possíveis.

 

Ela me ouviu esse tempo todo, estamos bem agora, tenho certeza.

Meu parto foi provocado pela natureza e foi regido por ela. Foi respeito. Foi vida. Foi amor.

Meu parto foi... Natural.